quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Penúltimo cenário

Quem dera eu poder escrever tudo que eu queria escrever, além disso, poder dizer tudo àquilo que eu queria dizer. E mais, me permitir sentir tudo aquilo que eu queria sentir. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, acender velas, fazer caras, fazer novela – e como é de se esperar o script nem sempre é o mesmo. Alias, é o mesmo sempre. Por já saber de certo o enredo, o final já poderia prever, a história é sempre a mesma. Por que seria diferente?
Conheci um ator há um tempo atrás, inteligente, bonito, excelente no que fazia, pudera eu dizer que ele atuava muito bem, eu sempre o assistia, atentamente. Vigiava todos os seus ensaios, conhecia de ponta a ponta todas as suas falas e interpretações, apesar de repetitivos e decorados ele atuava muito bem. E como todos os atores, suas facetas eram bem reais. Eu o admirava muito, até hoje o admiro. Faz tempo que eu não o vejo e acho que até sinto falta dele. Quando a gente conversava, por vezes quase conseguia me enganar com aquelas falácias dele – ele achava que eu era boba de cair. Mal sabia ele que eu sabia daquele roteiro de trás pra frente. E pra não cair naquele jogo, aprendi a ser um pouco atriz também. No começo isso funcionava muito bem, até que chegou um tempo que eu não sabia mais o que era real ou ficção, na dúvida eu continuei a atuar, e ele, talvez, tentava me mostrar que aquilo tudo não era mais ficção.
E eu errei mais uma vez quando me pediu para que eu parasse de ser tão atriz e eu neguei. Continuei mentindo e blefando no jogo de não me deixar errar, quando o único jogo acertado seria não atuar, e eu: neguei. Toda atenta pra não me enganar com medo de errar, e eu negava e errava cada vez mais. Até que ele me disse que precisava ir embora, apesar de gostar muito de mim. E que apesar de sentir que tudo que eu fazia ou deixava de fazer era tudo atuação minha, ele precisava de algo mais – alguém que acreditasse nele. E eu o deixei ir, preferi que fosse, antes que eu descobrisse que eu era uma farsa pra mim mesma. Eu dizia pra ele que não acreditava fazia tempo naqueles finais felizes das novelas e peças que ele fazia. E ele disse que estava cansado de não acreditar. E tentava me mostrar que nem tudo era tão irreal quanto parecia. E que nem sempre ele era tão bom ator assim. Sem tanta dor, permiti e nem pedi que ficasse e nem quis saber também o porquê, se eu já sabia, antes que ele me mostrasse que o dizia era verdade. Dei meu número pra ele e guardei o dele, mas nem vou ligar apesar de ter lembrado dele, porque meu papel agora é outro. Talvez um dia ele volte e tente me mostrar mais uma vez que a historia poderia ser diferente, e eu não esteja tão cética. Ou pode ser que não, pode ser que nada disso acontença. Pode ser que eu nem o veja mais. Pra mim vai está tudo bem da maneira que for. Faz tanto tempo que eu não o vejo mesmo, talvez ele tenha até deixado a profissão de ator sem que eu percebesse ou tivesse noticia e eu preferi continuar aqui, descrente desse ou daquele final feliz que eu aprendi a desacreditar, sendo essa tão boa atriz, que ninguém percebe minha péssima atuação.
                                           
                                                                                                                                

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Que seja!

"Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim:


Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada. Que seja doce o dia quando eu abrir as janelas e lembrar de vocês;

Caio Fernando Abreu
E que seja doce, todos os dias.

domingo, 17 de outubro de 2010

Horário de Verão

Horário de verão, aah adoroo!, começou ontem, acordei já com o relógio adiantado por mais uma hora. Como havia dormido o dia todo, as horas passaram muito rápidas - afinal não tinha nada de bom a se fazer a não ser dormir e numa tarde daquela dormir era um convite tentador pra quando não tem nada e não se quer fazer nada – Acordei era meia noite, logo, 1 hora da manhã – horário de verão. Fui oscilar pela madrugada como sempre, lendo uns textos aqui, conversando ali, escrevendo, pausa pra um lanche, volta a ler, volta a conversar e sem resistir resolvi escrever, só que dessa vez uma mensagem, eram umas 3 horas, não sei exatamente imaginei que pelo horário e que pela breve ausência, ficaria surpreso e feliz com ela e quis fazer essa “surpresa” – acreditando que se fosse o contrario, sentiria o mesmo - e mandei. Como sempre - Irônica e um pouquinho orgulhosa, mas só um pouquinho, o suficiente pra disfarçadamente assumir alguma coisa: “Só pra você saber que eu não estou com saudades de você! Pode acreditar pq eu minto muito bem”. E voltei a fazer o mesmo script – ler, conversar, escrever. Numa conversa e outra, minha amiga me fez o convite tentador de ir à praia – era horário de verão -, assim que amanhecesse, me comprometi de acordá-la e apesar de ter ligado ligado ligado, ela não acordou e a praia ficou pra mais tarde. Sorte por ser horário de verão. Mais uma hora extra de sol, areia e mar. A água estava gelada e o sol começou a desaparecer. Ficamos sobre a canga jogando conversa a fora. Até que o sol sumiu de vez. E bateu maior saudade do verão, também. Mas já está pertinho, pensei. Como quem brevemente esquece, mas guarda essas coisas, recolhemos a saudade e as coisas e fomos embora. Assim como o sol que foi embora, a lembrança da mensagem o fez companhia - apesar de não ter esquecido dela,- porque talvez não esperasse nenhum retorno, ou porque não precisasse também – bastava ele saber e eu imaginar que ficaria surpreso e feliz. Mas inconsciente pensava – Espero que esteja pertinho,- mas era inconsciente.
Cheguei em casa, liguei o PC como sempre, e já ia me encaminhar ao banho quando – “Amoor” – já não precisava mais nada. – “te confesso q fiquei surpreso com a mensagem de ontem” – disse como eu esperava - “tava te sentindo tão distante nesses últimos dias”, concluiu como eu sentia – continuou, - “te confesso outra coisa”, – e pra minha surpresa disse em tom de irônia - “esses dias q a gente ficou um pouquinho longe teve seu lado bom tbm” e sem orgulho pra minha felicidade assumiu – “deu saudade,, vontade de passar na sua porta só pra te ver”.
Aaah! E confesso que fiquei toda boba, surpresa e feliz – e assumo aqui numa boa sem precisar disfarçar meu orgulho. Pode acreditar! Porque nem sempre eu sei ou consigo mentir.



Para: ah, quem reconhece os verbos e objetos indiretos sabe que é o sujeito :)

O mar mais longe que eu vejo

Talvez, sim, talvez eu fosse mulher, porque pensava no príncipe, a minha mão direita era a minha mão e a minha mão esquerda era a mão do príncipe, e a minha mão direita e a minha mão esquerda juntas eram as nossas mãos. Apertava a mão do príncipe sem cavalo branco, sem castelo, sem espada, sem nada. O príncipe tinha uns olhos fundos, escuros, um pouco caídos nos cantos e caminhava devagar, afundando a areia com seus passos. O príncipe tinha essa coisa que eu esqueci como é o jeito e que se chama angústia. Eu chorava olhando para ele porque eu só o tinha e ele não falava nunca, nada, e só me tocava com a minha mão esquerda, e eu cantava para ele umas cantigas de ninar que eu tinha aprendido antes, muito antes, quando era menina, talvez tenha sido uma menina daquelas de tranças, saia plissê azul-marinho, meias soquete, laço no cabelo, talvez. Sabe, às vezes eu me lembro de coisas assim, de muitas coisas, como essa da menina  - como se houvesse uma parte de mim que não envelheceu e que guardou. Guardou tudo, até o príncipe que um dia não veio mais. Não, não foi um dia que ele não veio mais, foram muitos dias, em muitos dias ele não veio mais e passei a não acreditar nele mais. A água do mar salgava a minha boca, o sol queimava a minha pele, eu tinha a impressão de ser de couro, um couro ressecado, sujo, mal curtido. E havia essa coisa que também esqueci o jeito e que se chamava ódio ou amor. De vez em quando eu pensava - eu vou sentir essa coisa que se chama ódio. E sentia. Crescia uma coisa vermelha dentro de mim, os meus dentes rasgavam coisas. Devia ser bom, porque depois eu deitava na areia e ria, ria muito, era um riso que fazia doer a boca, os músculos todos, e fazia as minhas unhas enterrarem na areia, com força. Já pensei em sentir de novo essa coisa chamada amor, também. E, talvez pudesse sentir. Se eu deixasse. Mas eu não queria, acho que eu não queria. Deixei essa historia de querer pra lá, de querer pedir pra que alguém fique, sem que eu não tivesse tempo de me dizer qualquer coisa.  Sem que eu tivesse tempo de me dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo. Mas, deixei pra lá.



Adaptado por mim.
Fragmento do livro "O Inventário do Irremediável",
Caio F. Abreu

Hoje: ZzzZ..zZzz

"Sem pensar em mais nada, fecho os olhos para esquecer.  Dorme, menina, repito no escuro, o sono também salva. Ou adia”.
 Caio F. Abreu


sábado, 16 de outubro de 2010

Corujas

Tinham um olhar dentro, de quem olha fixo e sacode a cabeça, acenando como se numa penetração entrassem fundo demais, concordando, refletidas. Olhavam fixo, pupilas perdidas na extensão amarelada das órbitas, e concordavam mudas. A sabedoria humilhante de quem percebe coisas apenas suspeitas pelos outros. Jamais saberíamos das conclusões a que chegavam, mas oblíquos olhávamos em torno numa desconfiança que só findava com algum gesto ou palavra nem sempre oportunos. O fato é que tínhamos medo, ou quem sabe alguma espécie de respeito grande, de quem se vê menor frente a outros seres mais fortes e inexplicáveis. Medo por carência de outra palavra para melhor definir o sentimento escorregadio na gente, de leve escapando para um canto da consciência de onde, ressabiado, espreita-ria. E enveredávamos então pelo caminho do fácil, tentando suavizar o que não era suave. Recusando-lhes o mistério, recusávamos o nosso próprio medo e as encarávamos rotulando-as sem problema como "irracionais", relegando-as ao mundo bruto a que deviam forçosamente pertencer. O mundo de dentro do qual não podiam atrever-se a desafiar-nos com o conhecimento de algo ignorado por nós. Pois orgulhos, não admitiríamos que vissem ou sentissem além de seus limites. Condicionadas a seus corpos atarracados, de penas cinzentas e três garras quase ridículas na agressividade forçada ― condicionadas à sua precariedade, elas não poderiam ter mais do que lhe seria permitido por nós, humanos.
 
Fragmento do livro "Inventário do irremediável.",
Caio Fernando Abreu ♥



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

adverbial

…o que é amor pra você?
- Em 1987 meu pai tinha um carro azul.
- Mas o que isso tem a ver com amor?
- Bom, acontece que todos os dias ele dava carona pra uma moça. Ele saía do carro, abria a porta pra ela, quando ela entrava ele fechava a porta, dava a volta pelo carro e quando ele ia abrir a porta pra entrar, ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas e os dois morriam de rir… acho que isso é amor.

ps: achei bunitinho *-*
ps 2: às vezes eu sou tão gay , rs

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